Quanto custa para a companhia levar mais um passageiro?
Quase nada. É por isso que a passagem de última hora às vezes sai barata, e é a melhor porta de entrada para entender custo marginal.
Quando o avião já vai decolar com lugar vazio, quase todo o custo do voo já está pago. Mais um passageiro acrescenta pouco: lanche, um pouco de combustível pelo peso, bagagem. Esse acréscimo é o custo marginal. Qualquer passagem acima dele aumenta o lucro, mesmo que pareça barata demais.
Assento vazio é comum
Em 2025, os voos domésticos no Brasil decolaram com 83,6% dos assentos ocupados, um recorde segundo a ANAC. Em média, cerca de 1 em cada 6 assentos voou vazio.
A pergunta desta aula é sobre esse assento. A companhia ganha alguma coisa se vender esse lugar barato? Para responder, precisamos separar dois custos que costumam aparecer misturados.
Dois custos que vivem se misturando
A maior parte desse custo existe com ou sem você no avião. Só o combustível foi 29,4% dos custos das companhias em 2025, e a maior parte dele é gasta para mover o avião, com ou sem você a bordo.
Num exemplo com números redondos, inventados para facilitar a conta:
É o número de quem diz que a passagem não pode custar menos que R$ 600.
Pergunta erradaO custo médio diz quanto o voo custou. Mas a companhia precisa decidir outra coisa: se vale vender mais um assento.
No nosso exemplo, mais um passageiro custa uns R$ 100. É isso que decide se vale a pena vender o assento.
Onde entra a derivada
Em cálculo, o custo marginal é a derivada do custo total. No gráfico, é a inclinação da curva de custo: quanto ela sobe a cada passageiro a mais. Num avião que já vai decolar, essa curva é quase deitada.
Em linguagem de conta, se C(q) é o custo de levar q passageiros:
A conta que a companhia faz
| Pergunta | Quem responde | No exemplo |
|---|---|---|
| Quanto custou cada passageiro, em média? | Custo médio | R$ 600 |
| Quanto custa levar mais um? | Custo marginal | R$ 100 |
Com assento vazio perto da hora do voo, qualquer passagem acima de R$ 100 aumenta o lucro. Vender por R$ 200 parece prejuízo pelo custo médio, mas põe R$ 100 a mais no caixa.
Então por que não vender tudo barato?
Porque quem pagaria caro também ia esperar a promoção. O manual de Krugman e Wells faz essa conta: cobrar mais de quem viaja a trabalho e oferecer preço menor a quem é flexível. Funciona enquanto o preço baixo ficar acima do custo marginal.
Para separar os dois públicos, a passagem barata vem com regras: compra antecipada, sem reembolso, data fixa. Quem viaja a trabalho raramente aceita essas regras. Esse mecanismo é a discriminação de preços, tema de uma aula própria.
A mesma lógica em outros lugares
Cinema vazio na terça, hotel no meio da semana, academia às duas da tarde. Em todos eles, o lugar vazio é um custo que já foi pago, e por isso aparecem preços menores justamente nesses horários.
Fechando a conta
Um ônibus de turismo custa R$ 4.000 para fazer a viagem com 40 lugares. Cada passageiro a mais custa R$ 20 (lanche e seguro). Faltando uma hora para sair, há 5 lugares vazios. Vale vender esses lugares por R$ 50?
VER RESPOSTA
Vale. O custo médio é R$ 100 por lugar, mas o que decide é o marginal: R$ 20. Cada lugar vendido a R$ 50 põe R$ 30 no caixa; os 5 lugares rendem R$ 150 a mais. (Números de exemplo.)
A lista de e-mails do assimetria abre em breve.
Perguntas frequentes
Custo marginal é a mesma coisa que custo variável?
Não. O custo variável é a parte do custo total que muda com a quantidade. O custo marginal é quanto o custo total muda com uma unidade a mais.
Por que a passagem às vezes fica mais cara na última hora?
Porque perto do voo aparece quem precisa viajar e aceita pagar mais. A companhia combina as duas coisas: preço alto para esse público e promoção com regras para preencher o que sobra.
Fontes
- ANAC, Anuário do Transporte Aéreo 2025: aproveitamento doméstico de 83,6% (recorde) e combustível em 29,4% dos custos. Lido via Estadão Conteúdo (jul. 2026).
- Krugman, P. e Wells, R. (2007). Introdução à Economia, cap. 14: discriminação de preços em passagens aéreas.
- Sydsæter, Hammond e Strøm, Essential Mathematics for Economic Analysis, §6.4: custo marginal como derivada do custo.