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Assimetria · Continuidade

Aumento de salário pode te fazer ganhar menos por causa do imposto de renda?

Não. Mudar de faixa do imposto de renda nunca diminui o salário líquido. A prova é um conceito do cálculo chamado continuidade.

Resposta curta

A alíquota pula de uma faixa para outra, mas o imposto que você paga não pula. Cada faixa tem uma parcela a deduzir que faz só o pedaço da renda acima do limite pagar a alíquota maior. No limite entre duas faixas, as duas fórmulas dão o mesmo imposto. Por isso o imposto é uma função contínua e um aumento sempre deixa mais dinheiro no bolso.

O mito do aumento que faz perder dinheiro

Tem gente que recusa aumento com medo de mudar de faixa do imposto de renda e acabar ganhando menos. A ideia parece fazer sentido: se a alíquota sobe de 22,5% para 27,5%, o imposto não daria um salto?

Não dá. E entender por que exige separar duas coisas que costumam vir misturadas: a alíquota e o imposto.

AlíquotaO percentual cobrado em cada faixa da tabela. Ela muda em degraus: 7,5%, 15%, 22,5%, 27,5%.
Base de cálculoO valor sobre o qual o imposto é calculado. É o salário depois das deduções permitidas, como a contribuição ao INSS.

A tabela de 2026

Pela tabela mensal da Receita Federal para 2026, quem tem até R$ 2.428,80 de base de cálculo não paga imposto. Acima disso, a alíquota sobe em degraus:

Base de cálculo mensalAlíquotaParcela a deduzir
Até R$ 2.428,800%R$ 0
De R$ 2.428,81 a R$ 2.826,657,5%R$ 182,16
De R$ 2.826,66 a R$ 3.751,0515%R$ 394,16
De R$ 3.751,06 a R$ 4.664,6822,5%R$ 675,49
Acima de R$ 4.664,6827,5%R$ 908,73

Se o imposto fosse simplesmente a alíquota vezes a base inteira, a passagem de uma faixa para a outra seria um desastre. Um real a mais de salário poderia custar dezenas de reais de imposto, porque a alíquota maior passaria a valer sobre tudo.

A peça que resolve: a parcela a deduzir

O imposto não é a alíquota vezes a base. A conta é:

imposto = base × alíquota da faixa − parcela a deduzir
Parcela a deduzirUm valor fixo de cada faixa, descontado do resultado. Ele existe para que só o pedaço da renda que passou do limite pague a alíquota maior. O resto continua pagando as alíquotas das faixas de baixo.

O teste no limite

O jeito de ver isso funcionando é testar exatamente no ponto em que uma faixa vira a outra. Entre as duas últimas faixas, o limite é R$ 4.664,68.

Pela faixa de 22,5%: 4.664,68 × 0,225 − 675,49 = R$ 374,06
Pela faixa de 27,5%: 4.664,68 × 0,275 − 908,73 = R$ 374,06

As duas fórmulas dão o mesmo imposto. Não há salto: no ponto de troca, a nova faixa começa exatamente de onde a anterior parou.

Onde entra o cálculo

Função contínuaUma função cujo gráfico dá para desenhar sem tirar o lápis do papel. Em linguagem de cálculo: o limite da função, quando você se aproxima de um ponto, é igual ao valor da função nesse ponto.

Como as fórmulas se encontram em cada limite de faixa, o gráfico do imposto não tem degrau. Ele só fica mais inclinado a cada faixa. A alíquota é que tem degrau; o imposto, não.

Sem degrau

Na prática: quem mudou de faixa

Para ver a matemática da tabela, a conta a seguir usa só a tabela progressiva, sem a redução extra de 2026, explicada logo depois.

Quem tem R$ 4.600 de base está na faixa de 22,5%. Se ganha R$ 100 de aumento, passa para R$ 4.700 e muda para a faixa de 27,5%.

BaseImposto pela tabela
R$ 4.600R$ 359,51
R$ 4.700R$ 383,77

Ganhou R$ 100, passou a pagar uns R$ 24 a mais de imposto e ficou com uns R$ 76 a mais. Mudou de faixa e ganhou mais.

A redução de 2026 também é contínua

Em 2026 entrou em vigor uma redução do imposto (Lei 15.270/2025) que zera o imposto de quem ganha até R$ 5.000 por mês. Para quem ganha um pouco mais, ela não some de uma vez: diminui numa reta, até desaparecer em R$ 7.350.

Ela foi desenhada assim justamente para não criar um degrau. Se a redução sumisse inteira em R$ 5.000,01, um centavo de aumento poderia custar centenas de reais. Com a reta, o imposto continua contínuo.

De onde vem a confusão

Ela vem de confundir a alíquota da faixa com o imposto sobre o salário todo. Com R$ 4.700 de base, a faixa é de 27,5%, mas o imposto, de R$ 383,77, é só 8,2% da base.

Alíquota efetivaO imposto pago dividido pela base. É ela que diz quanto da renda vai de fato para o imposto, e é sempre menor que a alíquota da faixa.

A mesma lógica vale para o desconto do INSS, que também é cobrado por faixas desde a reforma da Previdência de 2019. Aumento de salário nunca diminui o líquido.

Fechando a conta

1. A alíquota pula de faixa em faixa.
2. A parcela a deduzir faz as fórmulas de faixas vizinhas se encontrarem.
3. No limite, o imposto é o mesmo pelas duas faixas: a função é contínua.
Por isso aceitar o aumento sempre compensa.
Teste rápido

Uma pessoa tem R$ 3.700 de base de cálculo e recebe um aumento que leva a base para R$ 3.800. Pela tabela progressiva, quanto ela paga de imposto antes e depois? Quanto do aumento fica com ela?

VER RESPOSTA

Antes, na faixa de 15%: 3.700 × 0,15 − 394,16 = R$ 160,84. Depois, na faixa de 22,5%: 3.800 × 0,225 − 675,49 = R$ 179,51. O imposto subiu R$ 18,67, e dos R$ 100 de aumento ficam R$ 81,33 com ela. (Conta só com a tabela progressiva, sem a redução de 2026.)

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Perguntas frequentes

Então mudar de faixa não tem nenhum efeito?

Tem: cada real a mais passa a pagar a alíquota maior. Mas só os reais acima do limite. Os de baixo continuam pagando as alíquotas das faixas de baixo.

E se eu ganho até R$ 5.000 em 2026?

Com a redução de 2026, quem ganha até R$ 5.000 por mês fica isento. Acima disso, a redução diminui aos poucos até R$ 7.350, também sem degrau.

Fontes

  • Receita Federal, tabela progressiva mensal de 2026 e parcelas a deduzir (182,16; 394,16; 675,49; 908,73). Redução mensal de 2026 pela Lei 15.270/2025: até R$ 312,89 para rendimentos até R$ 5.000; de R$ 5.000 a R$ 7.350, redução de 978,62 − 0,133145 × rendimento.
  • Emenda Constitucional 103/2019: contribuição ao INSS cobrada por faixas.
  • Sydsæter, Hammond e Strøm, Essential Mathematics for Economic Analysis, §7.8 (continuidade).